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sábado, 23 de outubro de 2021

quinta-feira, 29 de julho de 2021

CORES QUE FAZEM SENTIDO - azul índigo

 

Azulejos

Cerâmica siliciosa, moldada e pintada sob vidrado

Irão, dinastia Qajar, 1865-85


Se há uma cor que se associa à Pérsia, atual Irão, é precisamente o AZUL. Está relacionada com o cobalto, pigmento raro e dispendioso extraído das minas persas de Caxã, usado nas manufaturas do vidro e cerâmica e exportado para a China, a partir do século 14, para colorir de azul as brancas porcelanas. É um azul vibrante que encanta, tal como o tom usado nestes dois azulejos.

Azulejos moldados com decoração figurativa pintada sob vidrado. Retratam cenas de caça, com archeiros montados sobre cavalos brancos, a perseguir javalis. Os homens de turbante na cabeça, trajam uma veste interior longa, casaco curto, um deles aberto e debruado a pele e o outro fechado com alamares, cintos, calças e botas pelo joelho. Apresentam-se com o tronco voltado para a esquerda, olhando para trás, com o arco esticado entre as mãos. Abaixo, correndo a par dos corcéis a galope, dois javalis em fuga. O fundo é azul, semeado de plantas e flores, com alguns edifícios ao longe, no canto superior esquerdo, e montanhas no lado oposto.

A composição é delineada e pintada, sobre a base branca, com diversas cores obtidas a partir de pigmentos minerais e metálicos. O cobalto era utilizado para o azul, o manganês para o arroxeado, o cobre para o verde, o antimónio ou o ferro para o amarelo e o crómio para o preto. O contorno a preto era um passo fundamental para acentuar a definição do desenho, uma vez que as cores podiam escorrer um pouco no vidrado durante a cozedura.

A cerâmica siliciosa destes azulejos, era um material usado no Egito, na Síria e no Irão desde o século 12 e resultava de uma pasta obtida a partir do quartzo e vidro, moídos, misturados com uma argila branca, muito fina. Mais clara, compacta e resistente que o barro tradicional, a sua origem prende-se com as tentativas de igualar as qualidades únicas da porcelana chinesa, cuja brancura e brilho não tinham rival. Apesar de diferente, esta pasta representou uma grande evolução, pelas suas qualidades de resistência e maleabilidade, sendo possível moldá-la nas mais diversas formas e servindo de base ideal à pintura aplicada diretamente ou sobre uma fina camada de engobe branco. Nesse campo oferecia grandes possibilidades decorativas, sobretudo após a adoção do vidrado transparente alcalino que garantia a estabilidade dos pigmentos coloridos usados na pintura sob vidrado, para além de conferir um brilho e impermeabilidade, extras. A cerâmica siliciosa decorada com pintura sob vidrado era preferencialmente usada na azulejaria e na cerâmica de luxo dos povos islâmicos do Médio Oriente, primeiro no Irão onde o seu uso se prolonga pelos séculos 19 e 20, no Egito e na Síria a partir do século 15, e na Turquia na célebre cerâmica de Iznik, cujo apogeu acontece no século 16.

A partir de meados do século 18 e durante a dinastia Qajar (1779- 1924) assiste-se no Irão a um período de relativa paz que levou à construção de novos edifícios e palácios, o que significou um novo alento para a indústria dos azulejos. Essa produção centrada em Teerão e Isfaão, inspira-se em modelos anteriores, nomeadamente de tradição Safávida, a dinastia reinante entre os anos de 1501-1732, que utilizava a representação figurativa, de personagens enquadradas em paisagens, muitas a cavalo, cenas da corte, banquetes e temas épicos da literatura e da poesia. Está também associada ao aparecimento de uma nova cor, o rosa.

Na segunda metade do século 19, muitos destes azulejos, extremamente decorativos e apreciados pela sua temática, apuro técnico, pintura delicada e cores apelativas, para além de se destinarem ao consumo interno, também eram escoados para o estrangeiro, através de encomendas e compras de exemplares isolados, recordações adquiridas por visitantes ingleses de passagem pelo Irão. Na Inglaterra, muitos foram aplicados em fogões de sala de casas de campo, outros integram hoje coleções de museus, como o Victoria and Albert Museum ou o British Museum, de Londres.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

CORES QUE FAZEM SENTIDO - azul ciano


 Azulejo “figura clássica com pandeireta”

Faiança

John Moyr Smith (1839-1912),

Minton China Works, Inglaterra, ca. 1876


Quem diria que esta personagem da Grécia antiga destacada sobre um cativante fundo azul, representava um toque de modernidade nos interiores vitorianos do século 19. Azulejo estampado com figura clássica tocando pandeireta, nas cores azul ciano, castanho e bege sobre branco. Apresenta ao centro, no medalhão circular, um homem delineado a castanho sobre branco, de cabelos e barbas encaracolados, coroa de folhas na cabeça, trajando túnica de gola trabalhada e envolto num manto, com motivos em espiral e orla de grega. A figura recorta-se sobre o fundo azul com ramagens floridas brancas, sentada entre artefactos gregos, segurando a pandeireta e com uma vara de ponta lanceolada e fita amarrada, apoiada na perna. Enquadra este medalhão uma moldura de fundo bege sublinhada nas bordas por linhas castanhas que nas esquinas e aos lados formam motivos estilizados. A assinatura do autor “Moyr Smith” surge à esquerda, sob o vaso, junto ao friso geométrico.

Este exemplar pertence à série intitulada “figuras clássicas tocando instrumentos musicais”, formada por 8 azulejos distintos, correspondendo a cada um, uma personagem e um instrumento musical diferente, designadamente: “Tambourine” (pandeireta), “Sistrum” (sistro), “Lute” (alaúde), “Pandean Pipes” (flauta de pã), “Double Flute” (flauta dupla), “Keltic Harp” (harpa céltica), “Cymbals” (címbalos) e Kithara (cítara). Foi criada cerca de 1876, por John Moyr Smith para a “Minton China Works”. O conjunto podia ser completado por um friso próprio, coordenado, de motivos vegetais estilizados. Foi uma das séries mais difundidas, produzida em pelo menos 4 cores diferentes, cujos azulejos foram aplicados em diversos tipos de objetos, como cadeiras, fogões de sala em ferro fundido, lavatórios, floreiras e outros. A sua popularidade foi tal que o desenho acabou por ser reproduzido noutros suportes como o vidro pintado ou o couro gravado usado em mobiliário.

John Moyr Smith, escocês, nasceu em Glasgow, em 1839, iniciou a sua formação como arquiteto, frequentou a Escola de Artes na sua cidade natal e mudou-se para Manchester, em 1864, como assistente do arquiteto Alfred Darbyshire (1839-1908). Dois anos mais tarde transfere-se para Londres, onde desenvolve atividade profissional no âmbito das Artes Decorativas, como ilustrador, decorador de interiores, editor e designer de mobiliário, cerâmica, vitrais, objetos de metal e papel de parede, colaborando com as mais diversas empresas. A maior contribuição de Moyr Smith para a “Minton China Works”, estabelecida em Stoke-on-Trent, Staffordshire, foi na produção de azulejos figurativos estampados. Revelou-se um aliado de sucesso e a sua primeira colaboração aconteceu em 1872, com a série “Old Testament” (Antigo Testamento), prolongando-se a ligação por cerca de 20 anos, entre 1872 e 1892, através da criação de mais de 18 novas séries, correspondendo a cada uma, entre 8 a 24 desenhos diferentes. Os seus azulejos eram maioritariamente figurativos de inspiração revivalista, nomeadamente clássica e medieval, abordando temáticas variadas, como a mitologia, figuras alegóricas, grandes autores do passado, história da Inglaterra, atividades agrícolas e industriais, contos de fadas, cantigas infantis, temas bíblicos e literários de Shakespeare, Scott James Thomson (1700-1748) ou Sir Walter Scott (1771-1832).

Vários fatores como a evolução técnica, as alterações sociais e da moda determinaram a rápida expansão da indústria cerâmica na Inglaterra da segunda metade do século 19. Nesse âmbito a “Minton” foi sem dúvida uma empresa em destaque, pela sua rápida adaptação às novas tecnologias de produção massiva de azulejos, nomeadamente a calibragem e a estampagem, o que lhe permitiu abastecer uma clientela da classe média cada vez mais vasta, com produtos a preços muito competitivos que associavam a produção artística e industrial. De fato no final do século 19, a grande maioria das casas cuja decoração seguisse a moda, apresentaria azulejos no seu interior, estivessem eles nas paredes, em lareiras, no mobiliário ou em peças decorativas.


sexta-feira, 28 de maio de 2021

CORES QUE FAZEM SENTIDO - verde


 Azulejos 

Charles Francis Annesley Voysey (Yorkshire,1857-Winchester, 1941) 

Pó de pedra e esmaltes/ calibragem

Inglaterra, Pilkington's Tile & Pottery Co. Ltd., ca. 1900

Quão profundo pode ser o VERDE? Imenso, por esta amostra dificilmente chega ao fim. E que frescura emana das diversas intensidades do verde usado nestes azulejos de desenho estilizado. Representam túlipas, de linhas depuradas, inscritas num fundo dividido por secções de diferentes matizes da mesma cor. De formas elegantes, curvas suaves e subtis tonalidades, atestam o triunfo do design que dispensa os excessos, de cores e de traços.  

A adoção da prensagem (calibragem) no fabrico de azulejos de pó de pedra, a partir de 1840, veio permitir a sua massificação. Em primeiro lugar, a utilização da pasta de pó de pedra, menos húmida, trazia benefícios. Encurtava em dias o tempo de secagem necessário antes da cozedura, aumentava a sua resistência permitindo reduzir a espessura e diminuía o risco de empeno no forno. Quanto à prensagem, ou calibragem, uma das suas grandes vantagens era servir de base a várias técnicas decorativas o que simplificava o processo de fabrico. Por exemplo no caso da decoração em baixo relevo destes azulejos, era possível realizar numa única operação, o processo de decoração da face nobre e o de corte dos azulejos. Esta particularidade tornava-os mais acessíveis o que impulsionou a sua difusão, especialmente nos azulejos Arte Nova, datados das últimas décadas do século 19 e até cerca de 1914, o início da primeira Guerra Mundial. O método implicava a compactação mecânica da pasta, por meio de um torno, sobre uma matriz de metal com o motivo do desenho inciso. Os desníveis da superfície, menos acentuados nas zonas interiores e fundos junto às linhas em relevo do contorno do desenho, originavam zonas de claro e escuro resultantes da maior ou menor acumulação dos esmaltes translúcidos e coloridos, aplicados posteriormente sobre a chacota. Sendo essa a razão dos belíssimos efeitos de gradação de cor deste tipo de azulejos, cujos esmaltes à base de chumbo serão posteriormente abandonados devido à sua alta toxicidade, perversa para a saúde dos operários. 

Uma das empresas que mais se destaca neste tipo de revestimentos cerâmicos é a Pilkington’s Tile & Pottery Company, localizada perto de Manchester. A sua produção começa em 1893, e rapidamente se desenvolve tornando-se líder de mercado em 1900. Contava com um administrador especializado em química de vidrados e, para além dos seus próprios artistas, recorria a afamados designers externos como Lewis Foreman Day (1845-1910), Walter Crane (1845-1915) e Charles Francis Annesley Voysey.  É precisamente este último o responsável pela criação deste padrão de túlipas e de muitos outros com motivos estilizados, designadamente pássaros, flores e folhas, produzidos de modo idêntico e revestidos de vidrados de cores translúcidas. Charles Francis Annesley Voysey foi um dos arquitetos e designers, mais originais e influentes do seu tempo. Nasceu em Yorkshire em 1857 e após um período de formação com o arquiteto John Pollard Seddon (1827-1906), estabelece-se por conta própria a partir de 1882. Desenvolve os seus primeiros trabalhos na área do desenho têxtil e de papel de parede concebendo padrões atrativos e inovadores. Recorre à natureza como fonte de inspiração, não copia, mas interpreta-a e dá asas à imaginação. Usa a estilização e a abstração para alcançar grandes efeitos decorativos. Revelando um enorme talento, foi chamado a colaborar com as mais destacadas empresas de tecidos, tapetes, papel de parede e azulejos.  Desenhou também mobiliário, artigos de mesa, talheres, objetos de metal, de iluminação e ferragens. Foi um dos primeiros a perceber a importância e o impacto do desenho industrial. No âmbito da arquitetura distinguiu-se através dos seus notáveis projetos de casas de campo, caracterizados pela elegância, linhas sóbrias e geométricas, de cores claras, bem construídas, usando bons materiais, para as quais desenhava os mínimos detalhes, evidenciando um conceito inovador para a época. Não era adepto de revivalismos, privilegiava os materiais à decoração. O seu estilo minimalista, de interiores pouco decorados, mas cuidadosamente projetados e mobilados, enquadram-no nos princípios do movimento Arts and Crafts e tornam-no um percursor dos ideais Modernistas. Participava regularmente nas exposições da Royal Academy, apresentando perspetivas aguareladas de moradias por si projetadas, e na Arts And Crafts Exhibition Society, de Londres, exibindo as suas criações de mobília, padrões decorativos, objetos domésticos e fotografias das suas casas.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

CORES QUE FAZEM SENTIDO - verde

 

Azulejos hispano-mouriscos

Barro vidrado, aresta

Sevilha, Espanha, séc. 16


Quem não se perde de amores neste labirinto de laçarias que se entrecruzam separando as cores? Os padrões geométricos são dos temas principais da Arte Islâmica, mais virada para o significado e a essência das coisas do que para a sua mera representação. Assim, a geometria reflete a linguagem do universo na medida em que expressa a grandeza da criação. O círculo não tem fim e por isso é infinito, é a base de todo o padrão geométrico. O círculo tem o significado religioso de unidade, um só Deus. É a partir dele e das suas múltiplas divisões que, a régua e compasso, se cria a grelha ilimitada de polígonos, estrelas e rosáceas. É esta complexa teia que permite a repetição sem fim, reflete a essência também infinita de Alá. Simultaneamente comprova a importância do pormenor ou do que é pequeno, porque na essência está o todo, ou seja, com um único módulo é possível partir para infinito.

Estes azulejos demonstram bem o perfeito domínio da construção geométrica. O padrão, de efeito caleidoscópico, parte de uma estrela verde, de 16 pontas, para irradiar numa intrincada grelha de laçarias brancas, cujo interior de diferentes formas poligonais é pintado nas cores manganês, mel e verde. A decoração segue a tradição das composições alicatadas que conheceram o seu apogeu nos séculos 14 e 15, primeiro em Granada e depois em Sevilha. São realizados na técnica de aresta, cujos primeiros testemunhos provenientes das oficinas cerâmicas de Sevilha e de Toledo, são atribuídos ao último quartel do século XV.

Na técnica de aresta a decoração era passada pressionando um molde, provavelmente de madeira, sobre os azulejos ainda crus. O molde tinha os motivos incisos e deixava uma aresta saliente com o contorno do desenho; daí a designação de aresta. Seguia-se uma primeira cozedura e depois os alvéolos da chacota eram preenchidos com vidrados de zarcão corados com óxidos, de cobre para o verde, de ferro para o mel e de manganês para o tom de castanho mais escuro. Eram precisamente as arestas que impediam a mistura dos vidrados durante a cozedura. Esta técnica inovadora representou uma grande evolução em relação à anterior de corda seca, simplificando ou quase mecanizando o processo de fabrico, o que permitiu uma produção massiva que veio responder à crescente procura do mercado interno e de exportação.

Portugal começa a importar azulejos sevilhanos ainda no século XV, mas é sobretudo a partir de 1498, após a visita de D. Manuel I a Castela e com estreitamento das relações com o país vizinho, que se difunde o gosto pela arte mudéjar em Portugal. Através das inúmeras obras implementadas por aquele monarca, esta moda que se reflete nos revestimentos cerâmicos e de madeira, nomeadamente nos tetos, difundiu-se por igrejas, conventos e palácios, espalhados por todo o país.

A Madeira, nos inícios de Quinhentos, viveu uma situação particularmente próspera, de acumulação de riqueza resultante da produção e comércio do açúcar. Foi um período de crescimento, que beneficiou do papel impulsionador de D. Manuel, preocupado em dotar o Funchal, elevada a cidade em 1508, de um centro mais desenvolvido, com edifícios mais adequados à importância mercantil alcançada. É este monarca que, em 1514, determina o revestimento a azulejos do coruchéu da Sé e é naturalmente por sua influência que se encomendam, em Sevilha, os azulejos que se aplicaram em diversos edifícios na Ilha, nomeadamente no Convento de Santa Clara, donde provêm estes exemplares, ou no desaparecido Convento de Nossa Senhora da Piedade, em Santa Cruz. À época o porto de Sevilha era particularmente ativo, sendo o único de Castela autorizado a comerciar com a América, pelo que os azulejos aí embarcados constituíam uma carga ideal e compensadora, serviam de lastro aos navios que no retorno podiam ser carregados com o precioso açúcar de exportação.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

CORES QUE FAZEM SENTIDO - amarelo


 Azulejo italo-flamengo

Majólica

Oficina Den Salm, Antuérpia

Bélgica, 1558


Azulejo policromo nas cores amarelo limão, amarelo ocre, laranja, azul-cobalto, azul claro, verde, manganês e branco. Apresenta fundo amarelo com desenhos delicadamente delineados a azul-cobalto. À esquerda arruma-se uma secção de panóplia militar (escudo, bainha, lança e alabarda), donde parte uma fita amarelo ocre, rematada por borla pendente. No canto inferior direito um pássaro, de longo bico, pousado sobre haste branca com fita pendurada e, ao lado, uma borboleta esvoaçante.

Este é precisamente um exemplo onde o amarelo é sinónimo de ouro e de luxo. No século 16 os azulejos eram utilizados para dignificar igrejas, capelas, conventos, enobrecer palácios, revestindo espaços de habitação e “grottos”, isto é, pequenos nichos ou recantos dispersos pelos jardins. A sua aplicação era claramente um sinal de distinção e, naturalmente, quanto mais longínqua a origem e requintada a decoração, maior o prestígio de quem encomendava. Este azulejo provém do Paço Ducal de Vila Viçosa e integrava uma das encomendas a Antuérpia, feitas cerca de 1558, por D. Teodósio I, 5º Duque de Bragança, destinadas ao revestimento de recintos afetos aos seus aposentos e aos da sua segunda mulher, D. Brites. Nesses espaços de ostentação, estava associado um sumptuoso programa decorativo que envolvia para além de azulejos, pinturas murais ou de teto douradas, tapeçarias, tapetes, panos de armar e mobiliário diverso.

Muitos destes artigos eram adquiridos em Antuérpia, ao tempo importantíssimo entreposto comercial e uma das mais ricas cidades da Europa. A sua prosperidade refletia-se no desenvolvimento artístico e na produção de artigos luxo, como tecidos, tapeçarias, objetos em metais preciosos, pinturas, cerâmica e azulejos. Era, portanto, o centro onde se podiam adquirir os melhores produtos para as mais faustosas casas europeias. Não seria assim de estranhar que o Duque de Bragança, requintado, culto, conhecedor e apreciador das artes, encomendasse à oficina Den Salm, a melhor de Antuérpia, estes azulejos sem paralelo em Portugal. Dando prova do mais avançado gosto renascentista os diferentes painéis seguiam um complexo e muito cuidado esquema decorativo, adequado aos espaços a que se destinavam e que incluía cartelas com o brasão do encomendador, cenas do Antigo Testamento, heróis da Antiguidade clássica, enquadradas por ferronneries, puttis, panóplias militares e musicais, pássaros, insetos, símios, urnas, festões, flores e frutos variados. Nesta nova estética em que as cores ganham uma importante dimensão, também as gravuras que circulavam por toda a Europa são fonte de inspiração.

Estes azulejos, não sendo os mais antigos revestimentos de majólica aplicados em Portugal são, dos primeiros testemunhos, os que apresentam um programa mais extenso e inovador, introduzindo na decoração cerâmica as ferronneries e os fundos amarelos. O seu custo, conhecido através do Inventário realizado por morte de D. Teodósio, após 1563, também não tinha comparação, sendo vinte vezes mais caro do que os azulejos lisos de fabrico nacional e oito vezes superior aos encomendados em Sevilha, sem dúvida que se tratavam de imponentes revestimentos de aparato.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Azulejos “gafanhotos e espiga”


Padrão de azulejos "gafanhoto e espiga" da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro. Este padrão foi criado em 1902 para a “Panificação Mecânica, Lda.”, de Campo de Ourique, em Lisboa, altura em que Bordalo Pinheiro concebe outros tipos de padrões para casas comerciais. Estes azulejos realizados em relevo, estão pintados nas cores verde e mel, apresentam gafanhotos dispostos na diagonal sobre duas espigas de trigo e finas folhas ondeantes sobre fundo verde mais claro. Os dois azulejos superiores estão colocados em espelho, tal como estariam no padrão original que estava associado a uma cercadura com idênticos motivos.

Rafael Augusto Prostes Bordalo Pinheiro nasceu em Lisboa a 21 de março de 1846, foi aguarelista, ilustrador, decorador, caricaturista político, jornalista, ceramista e professor. Frequentou o Conservatório e a Academia de Belas Artes, o Curso Superior de Letras e a Escola de Arte Dramática. Em 1863 entra para a Câmara dos Pares, onde descobriu a sua verdadeira vocação para as intrigas políticas. Em 1879 concebe a figura do Zé Povinho, publicada n'A Lanterna Mágica. Na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha começa, em 1885, a produção de louça artística. Concebeu um núcleo variadíssimo de peças, como jarras, vasos, bilhas, jarrões, pratos, azulejos, painéis, frisos, placas decorativas, floreiras, fontes-lavatório, centros de mesa, bustos, molduras, caixas, alfinetes e perfumadores. Produziu imensos desenhos para almanaques, anúncios e revistas estrangeiras. Foi prestigiado com várias medalhas de ouro, lançou várias publicações, entre elas, "O Calcanhar de Aquiles", "A Berlinda" e "O Binóculo, sendo a "A Paródia", o seu último jornal. Rafael Bordalo Pinheiro faleceu, em Lisboa, a 23 de janeiro de 1905. A fábrica continua em atividade, com o nome de Bordalo Pinheiro criando louças de mesa e fazendo reproduções de peças antigas.

A Casa-Museu Frederico de Freitas tem no seu acervo outro azulejo e peças em louça deste autor, ou da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.


Azulejos “gafanhotos e espiga”

Faiança, relevo

Rafael Bordalo Pinheiro

Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, Portugal, 1900-1905


quinta-feira, 6 de maio de 2021

O QUE É O AZULEJO?


 Azulejo é barro, é vidrado, é quadrado. É terra, é fogo, é lógica. É um revestimento que conserva e embeleza. Por vezes é discreto e nem se nota, outras é imponente, comovente até às lágrimas. Por isso o azulejo é mágico. 

É uma estranha parcela de um todo. Isolado representa pouco, mas multiplicado e enquadrado, cresce, integra-se, completa-se, ganhando sentido num revestimento que pode ser humilde ou majestoso. E o curioso é que por maior que seja a área azulejada, a falta da mais ínfima parcela, equivalente a um azulejo, torna-se uma lacuna que ressalta e compromete o conjunto. Por isso cada azulejo é importante.

É esforço, tempo e dedicação. É a manipulação de materiais modestos para um resultado deslumbrante. É o fado de gerações de pintores, oleiros e ladrilhadores que enriquece arquiteturas. Por isso azulejo é fortuna. 

É um saber antigo, orgulho, tradição, renovação. É a capacidade de renascer e sobretudo um reinventar que o tornou tão nosso. Por isso azulejo é dinâmica. 

É arte e imaginação. É a expressão de um país, a imagem cintilante que há muito nos marca a alma e que tão bem reconhecemos por sermos tão semelhantes. É sobretudo azul, com um sem fim de cambiantes… como o nosso mar… como o nosso céu… mas não só. Também não somos só mar e céu… Por tudo isso azulejo é Portugal.

Ana Margarida Araújo Camacho

In “AZULEJO - O Que é”. Rosário Salema de Carvalho (coord). Centro Atlântico, 2018



Legenda da imagem:
Azulejos de cercadura
Faiança
Portugal, séc. 17 (2ª metade)

AZULEJANDO - Dia Nacional do Azulejo 2021


 O Dia Nacional do Azulejo comemora-se a 6 de maio, constituindo uma chamada de atenção para a importância do azulejo português, mas também para a necessidade imperiosa da sua salvaguarda. 

Há mais de 5 séculos que o azulejo faz parte da nossa história e a sua presença tornou-se tão banal que nem sempre nos damos conta de como é marcante nas nossas vidas. Habituamo-nos aos revestimentos cerâmicos nas capelas, igrejas, no interior de edifícios, em fachadas, torres, varandas, jardins e fontanários e temo-los como garantidos. No entanto é importante ter a noção da sua diversidade. O azulejo não é uma realidade única, mas a soma das muitas realidades em que foi capaz de se reinventar ao longo dos tempos. Perceber essa evolução é acompanhar a história da arte portuguesa através de um imenso património, tão rico quanto frágil. O desenvolvimento urbano, as demolições e remodelações dos edifícios, os roubos, bem como o vandalismo, são os maiores riscos que afetam os revestimentos que se mantêm in situ. 

A Casa-Museu Frederico de Freitas possui uma diversificada e importante coleção de azulejos, alguns são testemunhos únicos de revestimentos desaparecidos e representam contributos fundamentais para o estudo da azulejaria nacional e da sua aplicação na Região. Foram salvos numa altura em que o azulejo era encarado como uma arte menor e em que o seu destino após as demolições era o lixo. A Casa-Museu Frederico de Freitas associa-se a esta comemoração nacional, dedicando a semana ao projeto online “Azulejando”, que a cada dia divulgará um exemplar da coleção. No dia 6 de maio, as entradas serão gratuitas e estarão disponíveis duas visitas orientadas à Casa dos Azulejos, às 11h00 e às 14h30, para grupos até 10 participantes. 

O projeto culmina no sábado com a realização de um ateliê de introdução ao azulejo, dedicado aos mais novos, que se inicia às 10h00 e estará aberto a um máximo de 10 crianças. A participação é gratuita, mediante inscrição prévia, através dos Serviços Educativos da Casa-Museu Museu Frederico de Freitas.


terça-feira, 27 de abril de 2021

CORES QUE FAZEM SENTIDO - laranja

 

Azulejo de figura avulsa

Faiança

Holanda, ca. 1610-1630


Azulejo de figura avulsa policromo pintado nas cores azul, verde e laranja sobre branco. Apresenta ao centro uma estilização de um vaso florido (albarrada) e os cantos são decorados com motivo de “folha de carvalho”.

Figura avulsa define um tipo de azulejo pintado com um desenho único, que se lê e compreende por si só. O único elemento de ligação com os azulejos anexos, quando existe, é o motivo do canto. Ao contrário dos azulejos de padrão que se organizam em composições com um mínimo de 4 azulejos e se adequam a revestimentos mais extensos, os azulejos de figura avulsa podem ser aplicados em áreas diminutas, como um rodapé ou um friso de lareira.

Essa característica explica a sua popularidade na Holanda, onde na primeira fase da produção, cerca de 1570, se privilegiava a azulejaria de padrão, polícroma, muito próxima dos modelos flamengos e italianos, usados em pavimentos. Esse período e até cerca de 1630, é próspero e assiste-se ao enriquecimento das alta e média burguesias, à migração para as cidades e à construção de novas casas, onde se generaliza o uso azulejo. Num país repleto de canais, onde os problemas de humidade eram comuns, o azulejo foi considerado o revestimento ideal pelas suas qualidades de impermeabilidade e fácil limpeza. A proliferação dos azulejos de figura avulsa está ligada ao seu uso nas habitações da classe média onde eram aplicados na “casa de dentro”, divisão, mais ampla que reunia a sala de estar e a cozinha. Usavam-se para cobrir pequenas áreas, como os lambris das paredes, as lareiras, os rodapés e as escadas, locais onde a tipologia de figura avulsa melhor se adapta.

Até 1630 predomina a policromia, nomeadamente o azul, o amarelo, o laranja, o verde e o manganês, sobre fundo branco. Este limitado reportório de cores era obtido a partir de óxidos metálicos derivados de minerais. Nomeadamente os tons de laranja e acastanhados provinham de minerais ricos em óxido de ferro, como o ocre e a terra úmbria. A partir de 1625 os gostos alteram-se e as preferências recaem sobre os azulejos monocromos, especialmente de cor azul. A policromia mantém-se apenas nas zonas rurais, mais atrasadas do interior, com tendência ao desaparecimento após 1650 e só renascerá anos mais tarde, com diferentes características.

As flores foram sempre um tema popular na pintura de azulejos nos Países Baixos. Primeiro surgem dispostas em vasos, evocando os modelos renascentistas, e depois, a partir de 1600 multiplicam-se em representações de diferentes espécies, das mais diversas origens. Esta manifestação genuinamente holandesa, difunde-se a par dos tratados de botânica, repletos de imagens de plantas e flores, que se publicam no século 17 e fomentam o estudo e o cultivo das plantas da Europa e Além-Mar. Nesse âmbito impossível não focar a importância da túlipa, flor símbolo do País e que se distingue, dominando todas as outras nas diferentes formas de expressão artística. 

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Assinalando o Dia da Espiga

Azulejo de padrão "Padarias" - Faiança, estampagem, estampilhagem e pintura manual. Fábrica de Louça de Sacavém. Sacavém, Portugal, século 20.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

OS ANJOS QUE NOS GUARDAM

Azulejos da temática “Anjos”, 
Faiança.  
Holanda, século 17/ 18



Esta peça integra um painel com 12 azulejos em exposição

sábado, 18 de abril de 2020

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Para assinalar o Dia da Espiga

Azulejo de padrão “padarias” Faiança, estampagem, estampilhagem e pintura manual Fábrica de Louça de Sacavém, Sacavém, Portugal, séc. XX.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Com os nossos gafanhotos assinalamos o aniversário do nascimento de Rafael Bordalo Pinheiro.


 Azulejos
Rafael Bordalo Pinheiro (Lisboa, 1846-Lisboa, 1905)
Barro vidrado /relevo
Portugal, Fábrica de Cerâmica das Caldas da Rainha, ca. 1905

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Assinalamos o Dia Mundial do Animal com o ...

Azulejo relevado, “Gato”
Rafael Bordalo Pinheiro 
Portugal, Caldas da Rainha, 1904

 A data foi escolhida em 1931 durante uma convenção de ecologistas em Florença. A escolha teve em conta o facto do dia 4 de outubro ser o dia de São Francisco de Assis, o santo padroeiro dos animais. Os principais objetivos desta celebração são:
sensibilizar a população para a necessidade de proteger os animais e a preservação de todas as espécies; mostrar a importância dos animais na vida das pessoas; celebrar a vida animal em todas as suas vertentes.