“Pierrot”
Porcelana, Vista Alegre
ca. 1927
A Casa da Calçada, originária do século XVII, apresenta características marcadamente românticas que denunciam as importantes intervenções ocorridas ao longo do século XIX. É o que nos revela a original fachada, com seus elementos de influência oriental tão ao gosto da época: a cor forte, as cúpulas de metal e, sob o alpendre, o lambrequim de madeira recortada e pintada.
Também os interiores acusam essas alterações. Na casa abastada as divisões passam a ter funções bem definidas, distinguindo firmemente o público e o privado. Seguindo esta tendência, o Palácio da Calçada, como era então conhecido, tinha um espaço mais público e de ostentação (a Sala da Entrada e os Salões) onde se exibia a melhor mobília, as peças de arte e cuja decoração interior era particularmente cuidada. São disso exemplo o trabalho de estuque visível nos tetos e paredes e, como ditava a moda, o papel que as revestia, de motivos florais e cor forte (amarelo ocre).
Na zona mais íntima da Casa (as Salas de Chá e de Jogo, a Saleta, a Biblioteca, etc.) conversava-se, lia-se, costurava-se, jogava-se, ouvia-se música, tomava-se chá ... Aqui o conforto vai ganhando importância. Multiplicavam-se almofadas, tapetes e têxteis, mesas de apoio que ladeavam cadeiras e sofás, bibelots, fotografias e plantas.
Outra novidade da casa urbana, era a estufa ou jardim de inverno, que permitia que as plantas trouxessem a natureza para o coração da habitação. Este espaço e o jardim, com a sua casinha de prazer, construção típica do século XIX, garantiam a tranquilidade da vida privada.
Madeira de vinhático, cera, barro policromado, papel, tecido, vidro, conchas, búzios e plantas secas
Prov. Convento de Nossa Senhora da Encarnação, Madeira, séc. 19
Capela de Nossa Senhora do Desterro, Coleção particular
Sabia que o “Menino Perdido” era uma antiga tradição que tinha lugar depois do Dia de Reis?
Esta tradição, de origem conventual, era seguida nos Conventos de Santa Clara, das Mercês e no Recolhimento do Bom Jesus, no Funchal. Está ligada ao episódio da infância de Jesus, nomeadamente ao seu desaparecimento e posterior encontro, por seus pais, no templo de Jerusalém, entre os doutores. No primeiro domingo a seguir ao Dia de Reis, a imagem do Menino era escondida, numa das celas das recolhidas no caso do Recolhimento do Bom Jesus, e, nos Conventos das Mercês e de Santa Clara, na casa de uma família distinta da cidade. A depositária do segredo da localização da imagem era a Madre Superiora. A descoberta do Menino tinha lugar 7 dias depois, no chamado “Domingo da Achada”. Quem acertasse no paradeiro do Menino tinha direito a um prémio, doces e iguarias diversas, oferecido pela casa que o acolhia. Originariamente o objetivo era a recolha de esmolas para o mosteiro.
Era uma honra ser escolhido para abrigar tão almejada imagem. A tal ponto que, corria o ano de 1810, coubera essa distinção ao condestável da Fortaleza de São Tiago, o qual, entusiasmado, mandara disparar a salva de tiros máxima em homenagem ao Menino que acolhia. Perante tal alarido levanta-se a cidade em pânico e alvoroço, acabando o fervoroso devoto por responder em conselho militar e, não obstante a absolvição face a tão entusiástica manifestação de fé, não se livrou de pagar os custos da pólvora despendida.
A última festa do Menino perdido, realizou-se no Convento de Santa Clara, em 1890, ano da morte da derradeira Madre Superiora Maria Amália do Patrocínio.