terça-feira, 15 de junho de 2021

CORES QUE FAZEM SENTIDO - azul ciano


 Costa norte da ilha da Madeira

Francisco Maya (Lisboa, 1915-Funchal, 1993)

Óleo sobre platex

Portugal, Madeira, 1953-1978


Haverá azul mais belo que o do oceano sob um céu ensolarado? Dificilmente algum tom se lhe compara e não basta ser artista, é preciso amar verdadeiramente o mar para captar essa beleza. Paisagem da costa norte da ilha da Madeira, com o mar em grande plano, calmo, luminoso, de um azul inebriante, desdobrado em tonalidades várias que refletem a ondulação suave. Navegando próximo, um barco a remos com três ocupantes e, ao fundo, a linha do horizonte esbate-se para se tornar céu, num tom mais pálido, manchado de nuvens esparsas, etéreas e esbranquiçadas. À direita ergue-se a encosta de contorno irregular, abrupto, que orienta o olhar no sentido vertical, conduzindo-o até ao longe por uma paleta de tons subtis que começa nos castanhos escuros, passa para os verdes mais suaves, segue pelos lilases que se esbatem em nuances azuis, tal como a neblina que caracteriza a distância.

Estes deslumbrantes efeitos são conseguidos através da manipulação hábil da espátula que deixa rastos de distintas texturas. Subtis volumetrias são criadas através da sábia aplicação de camadas de tinta espessa, alternadas com outras mais planas, podendo ainda ser raspadas para deixar à vista diferentes níveis de cor. Esta técnica é bem observável, no reflexo das rochas e da embarcação, que à esquerda equilibra a composição, dando a ilusão de movimento e transparência da água, onde os diferentes tons de azul, preto e branco espelham o perfeito domínio de tintas e espátula. No canto inferior direito a assinatura de Francisco Maya (F. Maya), o pintor que se apropriou do mar para impactar e distinguir a sua pintura.

Francisco José Peile da Costa Maya, filho do famoso escultor Delfim Maya (Porto, 1886-Lisboa, 1978), nasceu em Lisboa, em 1915, frequentou as aulas de desenho e pintura na Escola de Belas Artes, de Lisboa, onde obteve o diploma de autodidata. Viveu entre Cascais e as ilhas da Madeira e do Porto Santo, com passagens por Paris, Espanha, África do Sul, Moçambique e Angola, onde expôs os seus trabalhos. Pintou figuras humanas, temas sacros, vistas diversas, mas o mar é o seu tema recorrente em paisagens costeiras, marinhas, enquadrando barcos e pescadores. Não se fixa em detalhes, porque a sua pintura não é para ser vista ao perto mas à distância. Usa tintas de cores diferentes que dispõe em camadas, não as mistura na paleta, mas diretamente sobre o suporte, originando outros tons, diferentes formas, para dar vida e criar uma imagem. E é no mar que revela um talento inato, uma especial sensibilidade para captar a inquietude e a vibração das águas sempre em movimento. 

quarta-feira, 9 de junho de 2021

CORES QUE FAZEM SENTIDO - azul ciano

 

Retrato de Maria Manuela de Freitas

Guache e carvão sobre papel kraft

Rafaello Busoni (Berlim, 1900 – Nova Iorque, 1962)

Portugal, Madeira, 1935


Quando o acessório faz a diferença produz o efeito deste lenço azul, mostrando que um único apontamento de cor é suficiente para animar e valorizar o conjunto. Retrato de corpo inteiro de Maria Manuela de Freitas que se apresenta de pé, numa pose descontraída, com a mão direita na cintura e o braço esquerdo descaído ao longo do corpo. Veste calças pretas, blusa branca, de mangas compridas e colarinho desabotoado, com um lenço descaído sobre os ombros, preso ao lado com um nó. De rosto impassível, olhando ligeiramente à direita, apresenta o cabelo escuro, levemente ondulado, cortado à altura do queixo, bem ao gosto dos anos 30. Maria Manuela, carinhosamente apelidada de Necas, era a filha única do Dr. Frederico de Freitas e da sua mulher, a Senhora D. Marieta Larica do Nascimento. Nascida a 28 de outubro de 1920, a jovem teria cerca de 15 anos quando foi retratada, por Rafaello Busoni, em 1935. A atualidade do corte de cabelo e do vestuário, incomuns numa época e num meio onde poucas se aventurariam a usar calças, demostram bem tratar-se de uma rapariga moderna, segura de si, proveniente de uma família suficientemente liberal e aberta que lhe permitia acompanhar as últimas tendências da moda. De facto, deveria ser particularmente cuidada a sua educação e estreita a relação entre Maria Manuela e os pais, como tão devastadora viria a ser a sua morte, aos 19 anos, em abril de 1940.

A sua presença e memória será uma constante na Casa da Calçada, para onde o Dr. Frederico de Freitas se muda, com a família, no ano seguinte de 1941. Inúmeros outros retratos de Maria Manuela, em pintura, desenho e fotografia, testemunham a sua feliz, mas demasiado curta vida e integram hoje a coleção da Casa-Museu Frederico de Freitas. Este retrato é particularmente interessante pela expressão livre do traço, delineado a carvão, e das pinceladas soltas a guache nas cores preto, branco, rosa e azul. Essa mesma desenvoltura deixa à vista o fundo texturado e pardo do papel kraft, fazendo supor tratar-se de um apontamento rápido, uma possível atenção em agradecimento de alguma amabilidade. O Dr. Frederico de Freitas era conhecido pela sua proximidade e proteção aos artistas, e naturalmente terá apoiado Rafaello Busoni durante a sua permanência na Ilha.

Busoni chegou à Madeira, acompanhado pela mulher e filha, em janeiro de 1935, a bordo do paquete "Arlanz", na altura com 34 anos de idade. Realizou uma exposição de pintura de paisagens da Madeira, no Casino Vitória, inaugurada em 28 de março de 1935, sendo então divulgados pela imprensa local alguns dados biográficos e propagada a sua aptidão para o retrato. Nesse mesmo ano retratou várias figuras da elite funchalense, principalmente feminina.

Rafaello Busoni, nasceu em Berlim em 1900, filho de Ferruccio Busoni, músico italiano famoso, e de Gerda Sjöstrand, de nacionalidade sueca. Fez formação artística na Suíça, trabalhou em Paris e em Berlim, como ilustrador. Em janeiro de 1935 viaja, com a sua mulher Hannah e a filha do primeiro casamento, para a Madeira, onde se mantem durante cerca de um ano. Em 1936, com o início da Guerra Civil espanhola, a família regressa a Berlim, mas as origens judias da mulher determinam a partida para a Suécia, no início de 1939, e alguns meses mais tarde o embarque definitivo para Nova Iorque. Aí permaneceu até à sua morte, em 1962, exercendo a profissão de pintor e sobretudo de ilustrador de clássicos da literatura juvenil e de aventuras.

CORES QUE FAZEM SENTIDO - azul ciano


 Azulejo “figura clássica com pandeireta”

Faiança

John Moyr Smith (1839-1912),

Minton China Works, Inglaterra, ca. 1876


Quem diria que esta personagem da Grécia antiga destacada sobre um cativante fundo azul, representava um toque de modernidade nos interiores vitorianos do século 19. Azulejo estampado com figura clássica tocando pandeireta, nas cores azul ciano, castanho e bege sobre branco. Apresenta ao centro, no medalhão circular, um homem delineado a castanho sobre branco, de cabelos e barbas encaracolados, coroa de folhas na cabeça, trajando túnica de gola trabalhada e envolto num manto, com motivos em espiral e orla de grega. A figura recorta-se sobre o fundo azul com ramagens floridas brancas, sentada entre artefactos gregos, segurando a pandeireta e com uma vara de ponta lanceolada e fita amarrada, apoiada na perna. Enquadra este medalhão uma moldura de fundo bege sublinhada nas bordas por linhas castanhas que nas esquinas e aos lados formam motivos estilizados. A assinatura do autor “Moyr Smith” surge à esquerda, sob o vaso, junto ao friso geométrico.

Este exemplar pertence à série intitulada “figuras clássicas tocando instrumentos musicais”, formada por 8 azulejos distintos, correspondendo a cada um, uma personagem e um instrumento musical diferente, designadamente: “Tambourine” (pandeireta), “Sistrum” (sistro), “Lute” (alaúde), “Pandean Pipes” (flauta de pã), “Double Flute” (flauta dupla), “Keltic Harp” (harpa céltica), “Cymbals” (címbalos) e Kithara (cítara). Foi criada cerca de 1876, por John Moyr Smith para a “Minton China Works”. O conjunto podia ser completado por um friso próprio, coordenado, de motivos vegetais estilizados. Foi uma das séries mais difundidas, produzida em pelo menos 4 cores diferentes, cujos azulejos foram aplicados em diversos tipos de objetos, como cadeiras, fogões de sala em ferro fundido, lavatórios, floreiras e outros. A sua popularidade foi tal que o desenho acabou por ser reproduzido noutros suportes como o vidro pintado ou o couro gravado usado em mobiliário.

John Moyr Smith, escocês, nasceu em Glasgow, em 1839, iniciou a sua formação como arquiteto, frequentou a Escola de Artes na sua cidade natal e mudou-se para Manchester, em 1864, como assistente do arquiteto Alfred Darbyshire (1839-1908). Dois anos mais tarde transfere-se para Londres, onde desenvolve atividade profissional no âmbito das Artes Decorativas, como ilustrador, decorador de interiores, editor e designer de mobiliário, cerâmica, vitrais, objetos de metal e papel de parede, colaborando com as mais diversas empresas. A maior contribuição de Moyr Smith para a “Minton China Works”, estabelecida em Stoke-on-Trent, Staffordshire, foi na produção de azulejos figurativos estampados. Revelou-se um aliado de sucesso e a sua primeira colaboração aconteceu em 1872, com a série “Old Testament” (Antigo Testamento), prolongando-se a ligação por cerca de 20 anos, entre 1872 e 1892, através da criação de mais de 18 novas séries, correspondendo a cada uma, entre 8 a 24 desenhos diferentes. Os seus azulejos eram maioritariamente figurativos de inspiração revivalista, nomeadamente clássica e medieval, abordando temáticas variadas, como a mitologia, figuras alegóricas, grandes autores do passado, história da Inglaterra, atividades agrícolas e industriais, contos de fadas, cantigas infantis, temas bíblicos e literários de Shakespeare, Scott James Thomson (1700-1748) ou Sir Walter Scott (1771-1832).

Vários fatores como a evolução técnica, as alterações sociais e da moda determinaram a rápida expansão da indústria cerâmica na Inglaterra da segunda metade do século 19. Nesse âmbito a “Minton” foi sem dúvida uma empresa em destaque, pela sua rápida adaptação às novas tecnologias de produção massiva de azulejos, nomeadamente a calibragem e a estampagem, o que lhe permitiu abastecer uma clientela da classe média cada vez mais vasta, com produtos a preços muito competitivos que associavam a produção artística e industrial. De fato no final do século 19, a grande maioria das casas cuja decoração seguisse a moda, apresentaria azulejos no seu interior, estivessem eles nas paredes, em lareiras, no mobiliário ou em peças decorativas.


sábado, 5 de junho de 2021

CORES QUE FAZEM SENTIDO - azul ciano

 

Prato

Faiança, decoração estampada “Northern Scenery” John Meir & Son, Inglaterra, 1838-1897



Que tal velejar pelos lagos da Escócia ao jantar? Para tal basta divagar através das cenas representadas no serviço “Northern Scenery”, cuja decoração central se baseia em paisagens de lagos e castelos escoceses. 

No início do século 19, verifica-se uma enorme apetência pela literatura de viagens repleta de gravuras de locais exóticos e de paragens longínquas. Ao culto da paisagem e do pitoresco, alia-se na Grã Bretanha um patriotismo crescente de um Império em expansão e, face ao período conturbado das Guerras Napoleónicas e à maior dificuldade em viajar pela Europa, multiplicam-se os livros que retratam e enaltecem a beleza e os monumentos britânicos. Esta tendência é desde logo atentamente acompanhada pela indústria cerâmica, cujos fabricantes lançam para o mercado inúmeros serviços decorados com séries de paisagens. Mantém-se a predominância do azul e branco, atestando ainda a influência da tradicional porcelana chinesa, mas agora a decoração é de temática e gosto genuinamente europeus. Este prato pertence a um serviço de mesa que atesta bem esta moda, cujo período áureo decorreu entre os anos de 1815 e 1840, começando gradualmente a decair a partir de 1842, altura em que é aprovada nova legislação de direitos de autor que decreta a ilegalidade da cópia das ilustrações de livros. 

O serviço, que originalmente seria destinado a 12 pessoas, é hoje composto por 75 peças, entre pratos de sopa, rasos, de sobremesa e de pão, terrinas e respetivas conchas, travessas diversas, saladeira, pratos cobertos, prato com pé e molheiras. A série do padrão “Northern Scenery”, baseia-se num conjunto de gravuras, publicadas em Londres, em 1838, no 2º volume de “Scotland Illustrated”, de William Beattie (1793-1875). Neste conjunto foram identificadas 13 panorâmicas diferentes, todas constantes da dita publicação. São elas: “Loch Oich. Invergarry Castle”, “Kilchurn Castle. Loch Awe”, “Loch Lomond”, “Loch Creran with Barcaldine Castle”, “Dunolly Castle near Oban”, “Loch Awe”, “Loch Linnhe Looking South”, “Dunkeld. Perthshire”, “Pass of the Trossachs Loch Katrine”, “Loch Katrine looking towards Ellen’s Isle”, “Loch Leven Looking towards Ballahuish Ferry”, “Loch Achray” e “Loch Lomond [Sth Wst] View”.

Este é um prato raso de formato circular, aba de recorte ondeado, ligeiramente inclinada para o interior, em faiança branca estampada a azul-claro. Apresenta a paisagem “Loch Oich. Invergarry Castle” no fundo da caldeira, envolta por uma cercadura de finos pináculos. Trata-se de uma visão romântica do lago Oich, com montanhas e nuvens ao fundo, barcos a navegar placidamente por entre as margens verdejantes e as ruínas do castelo de Invergarry destacadas à direita. A aba é densamente decorada com ramalhetes de flores inscritos em reservas ondeadas, emolduradas por folhas de acanto e intercaladas por motivos em pinha de orla lobulada com flores, sobre fundo azul florido rematado exteriormente por cercadura de motivos em círculo e triangulares, alternados. 

A marca, impressa a azul no reverso das peças, é constituída por um escudo oval, coroado, com o nome da série “Northern Scenery” inscrito e ladeado por leão e unicórnio. Na zona inferior exibe uma decoração floral e a filactera ondulante, com as iniciais do fabricante “J. M.& S.” e o título da vista em itálico, por baixo.

John Meir & Son é uma empresa de Tunstall, em Staffordshire, Inglaterra, originária na John Meir que laborou entre 1812 e 1836, e que a partir de 1837 e até 1897 assume esta nova designação, passando a integrar na sua marca as iniciais J. M. & S. ou I. M. & S. Muito virada para a exportação, dedica-se especialmente à produção de cerâmica estampada, maioritariamente a azul, de inspiração romântica, sendo este padrão dedicado às paisagens da Escócia um dos que mais se popularizou.


quinta-feira, 3 de junho de 2021

CORES QUE FAZEM SENTIDO - azul ciano

 

Cortejo religioso

Autor desconhecido

Desenho à pena e aguarela sobre papel

Portugal, Madeira, ca. 1800-1830

Desenhe para mais tarde recordar! É este o princípio que sustenta grande parte dos álbuns de desenhos que nos ficaram do século 19. Numa época em que não existia a fotografia o registo de imagem através do pequeno apontamento de desenho era uma forma de ilustrar e conservar memórias de uma viagem. Não se trata aqui de cadernos de esboços ou diários gráficos com finalidades artísticas, mas de registos para uso pessoal ou partilha com um grupo restrito de familiares ou amigos. Os álbuns e os portefólios de aguarelas e desenhos tornam-se uma moda a partir do final do século 18. Podiam ser de um único autor ou reunir trabalhos de diversas autorias, sendo posteriormente organizados e encadernados, passavam depois a integrar as bibliotecas privadas no regresso à terra natal. Serviam como recordações, tal como mais tarde se usaram os álbuns de postais ou de fotografias. Dependendo da sensibilidade e do interesse de cada um, registava-se o pitoresco, o exótico, os costumes locais, aquilo que chamava particularmente a atenção por ser diferente. Um álbum de viagem é sem dúvida um testemunho individual e subjetivo, mas é também um importantíssimo documento iconográfico de aspetos raramente representados de outro modo, que não a escrita. 

Este curioso apontamento integra precisamente um álbum desse tipo, com cerca de 40 desenhos relacionados com a Madeira e alguns de outras localidades estrangeiras. Desconhece-se o seu autor e a sua datação aproximada, entre 1800 e 1830, é possível graças à indumentária das personagens urbanas que figuram em determinadas aguarelas. Algumas paisagens, aspetos da vivência local, das habitações, dos trajes populares, dos transportes são os principais assuntos retratados. 

Esta cena representa o que parece ser um cortejo fúnebre a passar numa zona central da cidade. Tem como fundo as frentes irregulares dos edifícios, uns térreos, outros de um, dois ou mais pisos, com as suas janelas, varandas ou balcões de madeira e telhados semeados de pedras, para prevenir que as telhas fossem levadas pelo vento. Na rua, pavimentada com grandes pedras roladas, passa o cortejo encabeçado pelos frades que levam os estandartes e o turíbulo fumegante, seguindo-se o esquife do defunto com os seus carregadores e alguns populares. Dois homens, um militar e um civil, de costas e de cabeça descoberta, em sinal de respeito, observam o grupo que passa. Os restantes distribuem-se pela rua, alguns usando o traje tradicional, botas, calção e camisa de linho branca, ou saia listada, lenço e carapuça, como o homem que se carrega ao ombro a vara com dois peixes pendurados, ou a mulher que cata piolhos a uma criança acocorada a seus pés. Os outros conversam ou parecem pedir esmola, indiferentes ao que se passa. É precisamente essa indiferença, o facto dos estandartes se levarem erguidos e as varandas se apresentarem vazias, sem espetadores, que leva a crer se tratar de um funeral e não da procissão do Enterro do Senhor. Ocasião mais solene que com certeza envolveria outro cerimonial, maior devoção e recolhimento por parte da população local. Na realidade até cerca de 1835, os enterramentos tinham lugar dentro dos recintos sagrados das igrejas e capelas, sendo provável que nos casos de menos posses os cortejos seguissem a pé e não houvessem caixões. 

A aguarela é o meio ideal para a pintura rápida de um apontamento de passagem. Os pigmentos usados possuem grão fino e podem ter diversas origens, sendo muitos derivados de substâncias minerais e de plantas às quais se juntam um elemento aglutinador solúvel na água e uma matéria para aumentar a sua flexibilidade. As primeiras aguarelas não tinham resistência à luz, mas a partir do século 18, com a adição de corantes químicos, as cores passaram a ter maior durabilidade, tratando-se sempre, de pinturas mais frágeis quando comparadas com outras técnicas. Consoante a quantidade de água e de pigmento misturado, as cores obtidas podem ser suaves ou intensas, devendo iniciar-se a pintura pelas cores mais claras, deixando por pintar as zonas onde se pretende dar a ilusão de luminosidade ou aquelas que se querem brancas, seguindo-se gradualmente para as mais escuras. A transparência é uma das principais características desta técnica. O traço à pena pode ser realizando antes da pintura ou depois, como parece ser este o caso, onde a presença do traço negro é bem notória.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

CORES QUE FAZEM SENTIDO - azul ciano

 

Panorâmica da Cidade do Funchal e da Costa Sul da Ilha da Madeira (…).

Impressão sobre seda

Ca. 1775-1800


O que cativa mesmo o olhar, nesta perspetiva da baía do Funchal, é o tom de AZUL ameno, delicadamente aplicado na seda para evidenciar o céu e o mar. Só num segundo momento somos atraídos pelo vulto sombrio da Ilha e pelos pormenores da pequena cidade, muralhada que se aninha na parte mais plana e baixa da enseada.

Gravura impressa sobre seda representando uma vista do Funchal, tirada a partir do mar. Mostra a cidade espraiada ao longo da enseada, subindo timidamente o anfiteatro dominado pelas imensas montanhas. No litoral Oeste é nítido o suave ondulado do relevo dos Picos da Cruz, do Buxo, dos Barcelos e das Romeiras; a Este a costa é marcada pelas arribas escuras e abruptas. Num plano aproximado, o mar estende-se com as embarcações fundeadas ao largo ou a navegar, umas de chegada e outras de partida.

Esta panorâmica, de autor não identificado, faz parte de um conjunto constituído por duas cartas impressas em duas folhas originalmente unidas. A primeira folha, mais estreita, apresenta esta vista da ilha da Madeira no terço superior, com o seguinte título “View of the City of Funchal and the South coast of the Island of Madeira, from Ponta de Cruz to the Brazen Head, taken from the Shipping in the Road”. Em abaixo, mostra um plano do ancoradouro do Funchal “Plan of the Road of Funchal”, com os pontos de referência da costa e indicações sobre o fundo do mar ao largo da enseada; inclui ainda uma série de observações “Observations on the road of Funchal and the isle of Madeira”, da autoria de Thomas Howe, em 1762, e comunicadas por Alexandre Dalrymble e ainda outras “General Observations on Anchoring” apresentadas pelo Capt. Kerr, em 1788.

A segunda folha integra um mapa da Ilha da Madeira com o título inscrito numa cartela “Geo-Hydrographic Survey of the Isle of Madeira, with Dezertas and Porto Santo Islands geometrically taken in the year of 1788”, realizado por William Johnston. Inclui ainda 3 registos diferentes. Sendo um deles, o superior, uma planta da cidade do Funchal “Plan of the Town of Funchal”, do Capt. Skinner, de 1775, e duas perspetivas da costa sul da Ilha, uma muito ampla, desde a “Ponta do Pargo à Ponta da Oliveira” (The Island of Madeira from Ponta do Pargo to Ponta da Oliveira” e a outra de “Machico ao Garajau” (The Island of Madeira from Machico to Brazen Head).

A Casa-Museu possui estas duas partes separadas, ambas impressas sobre seda. Trata-se de um interessante exemplo de uma compilação de informação sobre a Madeira, mais especificamente sobre o Funchal, que associa vistas, mapa, carta náutica, planta e notas de diversos autores e proveniências, num único documento editado originalmente por William Faden, em Londres, no ano de 1791, com a designação genérica de “Geo-Hydrographic Survey of the Isle of Madeira with the Dezertas and Porto Santo Islands (…)”.